Ícone do site Notícia do Tocantins

Camelos no Jalapão: animais que viralizaram na web têm histórico em turismo no Rio Grande do Norte

G1

A paisagem exuberante do Jalapão, no Tocantins, famosa por suas dunas douradas, fervedouros cristalinos e chapadões de tirar o fôlego, ganhou um elemento inusitado que rapidamente capturou a atenção da internet: camelos. Um vídeo mostrando quatro desses animais descansando tranquilamente em uma fazenda na região de Rio Sono, que faz divisa com Lizarda, no leste do estado, viralizou nas redes sociais, gerando curiosidade e surpresa entre os internautas e moradores locais. O que muitos não sabiam é que esses exóticos visitantes têm um passado ligado ao turismo em outra região do Brasil, o Rio Grande do Norte, revelando uma fascinante jornada e uma complexa situação de manejo de fauna no país.

A aparição surpreendente e a repercussão digital

A imagem dos camelos no coração do Cerrado tocantinense é, de fato, algo fora do comum. Acostumados a ver a fauna típica da região, como onças-pintadas, antas e aves raras, a população local e os turistas que frequentam o Jalapão foram surpreendidos com a presença desses animais originários de desertos da Ásia e da África. O vídeo, compartilhado por um morador local que expressou seu espanto com a frase “É diferenciada. Até camelo tem aqui”, rapidamente se espalhou, transformando os camelos em celebridades instantâneas da web e provocando discussões sobre sua origem e propósito em terras tocantinenses. A peculiaridade da cena, que contrasta a aridez da caatinga e as formações rochosas com a imagem clássica do deserto, foi o motor principal para a sua rápida disseminação digital.

O impacto nas redes sociais não se limitou à viralização do vídeo. Inúmeras pessoas questionaram a legalidade da posse de camelos no Brasil, seu bem-estar em um clima e bioma tão distintos de seu habitat natural, e como eles chegaram ao Tocantins. Essa onda de interesse público colocou os holofotes sobre a legislação de fauna exótica e as práticas de manejo, impulsionando a busca por informações mais detalhadas sobre esses animais.

Da paisagem potiguar ao Cerrado tocantinense: a história por trás da migração

Segundo apurações, os camelos que agora descansam no Jalapão não são recém-chegados ao cenário turístico brasileiro. Eles foram anteriormente empregados em passeios para turistas nas dunas do Rio Grande do Norte, uma atividade que em certas regiões do Nordeste busca replicar a experiência exótica de passeios em regiões desérticas. A mudança para o Tocantins ocorreu em abril de 2024, e desde então, os animais estão sob os cuidados de uma fazenda particular em Rio Sono. Essa transição levanta questões sobre o encerramento das atividades turísticas no estado nordestino, as razões para a mudança de propriedade ou de localização e a logística envolvida no transporte desses animais de grande porte por uma distância tão considerável.

A adaptação desses animais a um novo ambiente, embora o Cerrado possa apresentar períodos de seca e temperaturas elevadas, difere significativamente do clima costeiro e das dunas do Nordeste, e ainda mais de seu habitat desértico de origem. A translocação de animais exóticos é um processo complexo que exige planejamento rigoroso para garantir o bem-estar animal, considerando aspectos como alimentação, hidratação, temperatura e manejo comportamental.

Fiscalização e bem-estar animal: o papel da Adapec

A presença de fauna exótica em fazendas particulares, mesmo que para fins não comerciais, requer a atenção dos órgãos de fiscalização. No caso dos camelos do Jalapão, a Agência de Defesa Agropecuária do Tocantins (Adapec) confirmou que os animais são mantidos de forma regular. Do ponto de vista sanitário, foram conferidos a Guia de Trânsito Animal (GTA) e todos os demais documentos exigidos pela legislação. A GTA é um documento fundamental no Brasil para o trânsito de animais, atestando sua saúde e a conformidade com as normas sanitárias, prevenindo a disseminação de doenças e garantindo a rastreabilidade da movimentação animal.

A atuação da Adapec é crucial para assegurar que a presença desses camelos não represente riscos sanitários para outros animais da região ou para a saúde pública. A regularidade da documentação indica que os proprietários estão em conformidade com as exigências legais para a posse e o transporte de animais, incluindo espécies exóticas consideradas domésticas pela legislação vigente. No entanto, o monitoramento contínuo do bem-estar desses animais em um ecossistema não nativo é um desafio constante, exigindo que os proprietários garantam condições adequadas de alimentação, abrigo e atenção veterinária especializada.

Camelo ou dromedário? Esclarecendo as diferenças biológicas e legais

A distinção entre as espécies

Para muitos, “camelo” é um termo genérico, mas existe uma distinção crucial entre camelos e dromedários, embora ambos pertençam à família dos camelídeos. O biólogo Claudio Montenegro esclarece que a principal diferença reside no número de corcovas, as características curvaturas em seus dorsos. Os camelos (Camelus bactrianus), originários da Ásia Central, possuem duas corcovas, enquanto os dromedários (Camelus dromedarius), mais comuns na África e no Oriente Médio, apresentam apenas uma. Além da corcova, há diferenças sutis no porte, pelagem e tolerância a diferentes climas extremos, com os camelos sendo mais adaptados a invernos rigorosos e os dromedários a climas quentes.

Histórico de importação e legislação atual

Historicamente, dromedários e camelos foram importados para o Brasil com diversos propósitos. Desde o século XIX, esses animais exóticos faziam parte de acervos de zoológicos, atrações circenses e, mais recentemente, de resorts em regiões turísticas, especialmente no Nordeste, onde eram utilizados em passeios pelas dunas. O biólogo Montenegro ressalta que, embora a importação desses animais tenha sido permitida no passado, a legislação atual é mais restritiva e proíbe novas importações de muitas espécies exóticas, devido a preocupações com a introdução de doenças, o impacto ambiental e o bem-estar animal. No entanto, ainda existem animais no Brasil que são fruto dessas importações antigas ou de reprodução em cativeiro.

Classificação legal pelo Ibama

Apesar da proibição de novas importações, a posse de dromedários no Brasil tem um tratamento legal específico. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), através da Portaria nº 2.489/2019, incluiu o dromedário na lista de espécies isentas de controle para fins de operacionalização, classificando-o como uma espécie “doméstica”. Esta classificação não significa que o dromedário seja nativo do Brasil, mas sim que, para fins de manejo e controle por parte das autoridades ambientais, ele é tratado de forma diferente de espécies selvagens ou exóticas mais perigosas. Essa portaria simplifica certos procedimentos para proprietários que já possuem esses animais de forma legalizada, mas não anula a necessidade de licenças e fiscalização para garantir que o manejo seja adequado e que os animais estejam saudáveis e bem cuidados.

O impacto da presença de fauna exótica no imaginário e no ambiente local

A história dos camelos no Jalapão é mais do que uma simples notícia curiosa; ela reflete a complexa intersecção entre o turismo, a gestão ambiental e a interação humana com a vida selvagem, mesmo que exótica. A presença desses animais levanta questões sobre a responsabilidade ética de manter espécies não nativas, os custos e desafios de seu cuidado em um ambiente diferente, e o impacto cultural que eles geram ao mesclar o exótico com o familiar. Para o Tocantins, conhecido por seu turismo de natureza e ecoturismo, a adição inesperada de camelos à paisagem do Jalapão adiciona uma camada de fascínio e intriga que certamente continuará a gerar discussões e, quem sabe, até mesmo novas narrativas sobre a diversidade improvável que pode ser encontrada no coração do Brasil.

Este evento serve como um lembrete da vasta e surpreendente biodiversidade que nosso país abriga, e também das histórias singulares de animais que, por diversos motivos, encontram um lar inesperado em terras brasileiras. O caso dos camelos reitera a necessidade de um jornalismo que vá além do óbvio, buscando as camadas de contexto, legislação e história que dão profundidade a cada acontecimento.

Ficou intrigado com essa e outras histórias que moldam o cotidiano do Tocantins? O Notícias do Tocantins está comprometido em trazer a você um jornalismo de profundidade, com análises completas e informações precisas sobre os fatos mais relevantes da nossa região. Continue navegando em nosso site para se manter sempre bem informado e descobrir mais sobre as particularidades e belezas que fazem do Tocantins um lugar único no Brasil. Sua jornada de conhecimento começa aqui!

Fonte: https://g1.globo.com

Sair da versão mobile