Embora frequentemente associadas a pragas urbanas, as baratas figuram, surpreendentemente, no centro de uma promissora investigação científica. Em laboratórios brasileiros de alta tecnologia, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) estão desvendando os mecanismos biológicos sofisticados que esses insetos desenvolveram ao longo de milênios. O objetivo é claro: identificar como as baratas podem oferecer soluções inovadoras para a transição energética, especificamente na otimização da produção de biocombustíveis a partir da biomassa vegetal, um desafio crucial para um futuro mais sustentável.
O desafio da biomassa e a engenhosidade natural
Plantas como a cana-de-açúcar armazenam energia em moléculas complexas: celulose, hemiceluloses, pectinas e lignina. Transformar essa biomassa em biocombustíveis, como o etanol de segunda geração, exige quebrar essas estruturas de forma eficiente e econômica, o que ainda representa um gargalo tecnológico significativo, limitando o pleno potencial das energias renováveis.
Na natureza, porém, a decomposição vegetal é um processo contínuo e eficiente, orquestrado por microrganismos e insetos. Inspirados por essa ‘solução’ natural, os cientistas Marcos Buckeridge (USP) e Ednildo Machado (UFRJ) investigam esses sistemas biológicos. O objetivo não é empregar baratas na indústria, mas reproduzir, em laboratório e de forma segura, os eficientes sistemas enzimáticos e microbiológicos encontrados nestes insetos.
Metagenômica e proteômica: desvendando os segredos enzimáticos
Para decifrar esses mecanismos, a metagenômica é empregada. Esta técnica analisa o DNA de todos os microrganismos no intestino das baratas, permitindo identificar grupos microbianos e genes associados à produção de enzimas que degradam material vegetal. É crucial diferenciar enzimas produzidas pelo inseto daquelas originadas por sua microbiota simbiótica.
A proteômica complementa a metagenômica, oferecendo uma visão funcional. Enquanto a metagenômica revela o *potencial* genético, a proteômica identifica e sequencia as proteínas *ativas* – as enzimas que efetivamente atuam na digestão. Juntas, essas abordagens fornecem um entendimento profundo da maquinaria molecular por trás da eficiência das baratas, guiando a busca por enzimas promissoras.
Duas décadas de pesquisa no INCT do Bioetanol
O estudo integra um programa científico de longo prazo do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (INCT do Bioetanol). Financiado por CNPq e Fapesp, o instituto dedica-se há 20 anos a aprimorar a conversão da biomassa vegetal em energia, com foco na cana-de-açúcar, base do etanol brasileiro, e já compilou um vasto ‘catálogo’ de enzimas.
Um avanço foi demonstrar que enzimas da própria cana podem aumentar a eficiência da degradação da biomassa. A expectativa é que as enzimas dos insetos ampliem ainda mais esse desempenho, impulsionando biocombustíveis de segunda geração, que utilizam resíduos agrícolas e não competem com alimentos.
Biomimética: a natureza como inspiração para a inovação
A pesquisa é um exemplo clássico de biomimética, buscando soluções na sabedoria da natureza. Ao detalhar o sistema digestivo da barata Periplaneta americana, os cientistas não apenas isolam enzimas, mas compreendem sua arquitetura funcional eficiente. Próximos passos incluem o estudo de cupins e larvas do besouro tenébrio, também notáveis na decomposição de biomassa.
O professor Buckeridge enfatiza a gradualidade do processo, que exige testes e validações rigorosas para cada enzima. A busca vai além da tecnologia, desvendando ‘segredos fundamentais da Biologia’: como microrganismos e animais coevoluíram para formar sistemas robustos de degradação vegetal. Esse conhecimento é vital para criar processos bioindustriais mais eficientes, sustentáveis e que contribuam para a segurança energética e a redução de emissões.
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Fonte: https://agro.estadao.com.br











