Há três anos, em 24 de janeiro de 2021, o futebol tocantinense foi abalado por uma das suas maiores tragédias. Um acidente aéreo ceifou a vida de seis pessoas, incluindo quatro atletas, o presidente do Palmas Futebol e Regatas e o piloto da aeronave. Em meio à dor e à saudade, a cidade de Palmas e a comunidade esportiva do estado se unem para relembrar e honrar a memória de Wagner Machado, Lucas Meira, Ranule, Lucas Praxedes, Guilherme Noé e Marcus Molinari, cujos sonhos foram interrompidos precocemente. A data, que marca o terceiro aniversário da tragédia, reforça o compromisso de que suas histórias e contribuições jamais serão esquecidas, ecoando o sentimento expresso pelo clube e por toda uma nação de torcedores.
A tragédia que abalou o futebol tocantinense
O fatídico 24 de janeiro de 2021 amanheceu com a expectativa de um importante confronto. A delegação do Palmas Futebol e Regatas se preparava para viajar a Goiânia, onde enfrentaria o Vila Nova pela Copa Verde, um torneio regional que oferecia visibilidade e a possibilidade de uma vaga em competições nacionais. Era um voo curto, de decolagem programada da pista da Associação Tocantinense de Aviação, localizada no distrito de Luzimangues, em Porto Nacional. No entanto, segundos após levantar voo, o avião Beechcraft Baron 58, prefixo PR-ATH, caiu abruptamente, a apenas 150 metros da cabeceira da pista, culminando em duas explosões e um incêndio que consumiu a aeronave.
As vítimas eram figuras centrais no cenário do clube e promessas do esporte. O piloto, Wagner Machado, de 59 anos, era um profissional experiente. Lucas Meira, de 32 anos, presidente do clube, era a força motriz por trás da equipe. No elenco, o goleiro Ranule, de 27 anos, o lateral-esquerdo Lucas Praxedes, de 23, o zagueiro Guilherme Noé, de 28, e o atacante Marcus Molinari, de 23, representavam a juventude e a paixão pelo futebol. Cada um deles, com suas trajetórias e aspirações, deixou um vazio imenso não apenas para suas famílias e amigos, mas para toda a comunidade esportiva do Tocantins. A perda irreparável paralisou o clube e reverberou por todo o cenário esportivo nacional.
O doloroso balanço da investigação do Cenipa
A gravidade do acidente exigiu uma investigação minuciosa, conduzida pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão militar responsável por apurar as causas de ocorrências aéreas no Brasil. O trabalho do Cenipa é essencial para aprimorar a segurança da aviação, identificando falhas e emitindo recomendações para evitar futuras tragédias. Os relatos iniciais das testemunhas foram cruciais, indicando que o choque com o solo e as explosões ocorreram quase que imediatamente após a tentativa de decolagem, sugerindo uma perda de controle instantânea.
Excesso de peso: um fator crítico na decolagem
O relatório final do Cenipa apontou uma causa determinante para a queda: o excesso de peso. A aeronave teria decolado com uma sobrecarga de aproximadamente 300 kg acima do limite recomendado pelo fabricante. Este fator é extremamente crítico na aviação, pois afeta diretamente a performance da aeronave, comprometendo sua capacidade de gerar sustentação e de atingir a velocidade necessária para uma decolagem segura. Aeronaves, especialmente modelos de pequeno porte como o envolvido, têm limites de peso e balanceamento rigorosos, projetados para garantir que possam operar dentro de parâmetros seguros de desempenho e manobrabilidade. Uma pequena variação pode ter consequências catastróficas, especialmente em momentos críticos como a decolagem.
O excesso de peso impediu que o avião ganhasse a altitude adequada e alcançasse a velocidade de subida necessária. A apenas 150 metros da cabeceira da pista, a aeronave não conseguiu sustentar o voo, colidindo com o solo de forma violenta. A investigação detalhou que os tanques de combustível, localizados nas asas, foram atingidos simultaneamente no impacto, desencadeando as chamas que rapidamente consumiram a estrutura do aparelho. Este cenário ressalta a importância vital da verificação rigorosa do peso e balanceamento antes de qualquer voo, um protocolo fundamental para a segurança operacional e que, infelizmente, pode ter sido o elo fraco nesta fatal ocorrência.
Condição da aeronave e perfil do piloto
A investigação do Cenipa também analisou a condição técnica da aeronave e o perfil do piloto. Foi constatado que os motores e as hélices apresentavam indícios de operação normal no momento do impacto, descartando falhas mecânicas primárias nos propulsores. Da mesma forma, testemunhas não relataram anormalidades como barulhos estranhos ou fumaça durante a decolagem inicial. Em relação ao piloto Wagner Machado, a apuração revelou que ele era um profissional cuidadoso e criterioso, que realizou todos os procedimentos de rotina antes do voo, indicando que a falha não estava em sua experiência ou diligência habitual, mas sim nas condições operacionais da aeronave.
Contudo, a história da aeronave revelou um incidente anterior significativo. Em 2014, o mesmo Beechcraft Baron 58 sofreu danos substanciais após um acidente em um aeródromo de Brasília. Na ocasião, o relatório da Aeronáutica concluiu que o piloto se esqueceu de acionar o trem de pouso no momento da aterrissagem. Embora a aeronave tenha sido reparada e certificada para voo novamente, o histórico de acidentes, mesmo que por causas distintas, sempre levanta questionamentos sobre a integridade estrutural a longo prazo e a manutenção subsequente, apesar das certificações. A investigação deste último episódio, no entanto, focou na situação do peso e balanceamento como o fator preponderante neste trágico voo, excluindo problemas estruturais remanescentes como causa direta da queda de 2021.
A memória que persiste: homenagens e legado
O luto e a saudade permanecem, mas a memória das vítimas é constantemente honrada pela comunidade esportiva. O Palmas Futebol e Regatas utiliza suas plataformas digitais para relembrar e prestar tributos emocionantes, como a declaração divulgada nas redes sociais: “Neste 24 de janeiro, o Palmas Futebol e Regatas relembra com respeito e saudade seus atletas e o piloto da aeronave, vítimas do trágico acidente aéreo de 2021. Aos familiares, amigos e torcedores, nosso abraço e nossa homenagem. Seguiremos honrando cada história, cada sonho e cada vida que marcou para sempre o nosso clube. Jamais serão esquecidos”. Estas palavras reverberam o compromisso de manter viva a chama do legado de cada um, reforçando os laços entre o clube e sua história.
A Federação Tocantinense de Futebol (FTF) também desempenha um papel fundamental na manutenção dessa memória. Anualmente, a FTF organiza homenagens, como o minuto de silêncio respeitado em todos os jogos da segunda rodada do Campeonato Tocantinense. Essas cerimônias simbólicas, além de prestarem o devido respeito às vítimas, servem como um lembrete perene da fragilidade da vida e da importância da segurança em todas as esferas, inclusive no esporte. Elas reforçam os laços da comunidade e o espírito de solidariedade que une o futebol, mostrando que a dor da perda pode ser transformada em força para seguir em frente e lutar por um futuro mais seguro.
A tragédia do Palmas se tornou um marco de dor, mas também de resiliência e união. O incidente intensificou o debate sobre a segurança na aviação executiva e o transporte de equipes esportivas, levando a uma maior conscientização sobre os protocolos de voo e a necessidade de fiscalização rigorosa. As vidas perdidas naquele dia continuam a inspirar o clube a seguir em frente, buscando honrar seus atletas e seu presidente, e fortalecendo o futebol do Tocantins com a lembrança de quem partiu, mas que segue vivo na história do esporte local e nacional, servindo como um eterno tributo à paixão pelo futebol e à vida.
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Fonte: https://g1.globo.com











