Em uma decisão que promete aliviar as tensões no setor agroindustrial brasileiro, o Tribunal de Contas da União (TCU) aprovou, em plenário e por unanimidade, a substituição das penalidades de suspensão de atividades por multas para 379 agroindústrias do país. A medida, anunciada na quarta-feira (5/8), pretende resolver mais de 1.400 processos que estavam em curso, evitando a interrupção das operações dessas empresas. Este movimento é visto como uma resposta às necessidades do setor, que enfrentou dificuldades adicionais durante a pandemia de Covid-19.
Contexto e implicações da decisão
A decisão do TCU se baseia na recente Lei 14.515/2022, que introduziu o conceito de autocontrole na fiscalização agropecuária, eliminando penalidades como a suspensão e interdição de atividades. Antes desta legislação, a Lei 7.889/1989 e o Decreto nº 9.013/2017 determinavam que a suspensão de atividades era uma punição obrigatória, mínima de sete dias, para empresas que criassem obstáculos à fiscalização. A nova regra, portanto, representa uma mudança significativa na abordagem de penalizações no setor.
A situação se agravou durante a pandemia, quando o Ministério da Agricultura suspendeu a aplicação de penalidades para evitar paralisar cadeias produtivas essenciais, acumulando processos não executados. Com a controvérsia sobre qual legislação aplicar, o Ministério solicitou ao TCU uma solução consensual, resultando na criação de uma comissão específica para resolver a questão.
Impactos econômicos e sociais
A substituição das suspensões por multas tem um impacto econômico direto, com uma estimativa de arrecadação de R$ 32,3 milhões, conforme o documento do TCU. Este valor é dividido entre processos já julgados e aqueles ainda em tramitação, com a aplicação de um sistema de descontos progressivos para incentivar a resolução precoce dos litígios.
A Comissão do TCU destacou que, se as suspensões fossem executadas, o setor enfrentaria perdas de produção de R$ 35,3 bilhões, além de uma redução de R$ 5,4 bilhões em arrecadação tributária. Esses números evidenciam a importância da decisão para a economia nacional, especialmente em um momento de recuperação pós-pandemia.
Repercussão no setor agroindustrial
A decisão foi recebida com otimismo pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), que manifestou satisfação e aguarda a publicação de uma portaria ministerial que regulamentará a adesão individualizada à nova medida. Isso representa uma vitória para o setor, que vinha defendendo a impossibilidade de aplicar penalidades baseadas em uma legislação ultrapassada.
Por outro lado, a Advocacia-Geral da União (AGU) e a Consultoria Jurídica do Ministério da Agricultura argumentavam pela aplicação das normas vigentes à época das infrações. No entanto, prevaleceu a perspectiva de buscar uma solução que favorecesse a continuidade das atividades econômicas sem comprometer a fiscalização.
Perspectivas futuras
Com a implementação desta nova abordagem, o setor espera uma maior estabilidade regulatória e um ambiente de negócios mais previsível. A substituição de suspensões por multas pode servir de modelo para outras áreas, promovendo um equilíbrio entre fiscalização rigorosa e viabilidade econômica para as empresas.
A decisão do TCU pode ser vista como parte de um esforço mais amplo para modernizar a regulação agroindustrial no Brasil, incentivando práticas de autocontrole e responsabilidade corporativa. Resta agora observar como essa mudança será implementada na prática e quais serão seus efeitos a longo prazo nos setores de carne bovina, aves e laticínios.
Fonte: https://globorural.globo.com











