Luiz Inácio Lula da Silva, atualmente em seu terceiro mandato como presidente do Brasil, enfrenta um paradoxo intrigante. Apesar dos avanços econômicos notáveis, como a queda do desemprego para 5,6% em maio deste ano — a menor taxa registrada para o mês — e um crescimento econômico que supera as expectativas, uma parcela significativa da população brasileira expressa insatisfação com a economia do país. De acordo com uma pesquisa Genial/Quaest realizada em junho, 44% dos entrevistados acreditam que a situação econômica piorou nos últimos 12 meses.
Análise dos economistas Laura Carvalho e Guilherme Klein Martins
A economista Laura Carvalho, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), e seu marido, Guilherme Klein Martins, economista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), têm se dedicado a estudar essa desconexão entre os indicadores macroeconômicos e a percepção pública. Em seu artigo ‘Paradoxos do Lulismo: a desconexão entre resultados macroeconômicos e percepção sobre a economia’, eles identificam quatro fatores principais que contribuem para esse descompasso.
Fatores que influenciam a percepção pública
Para Carvalho e Martins, a inflação e seus impactos persistentes sobre o bem-estar dos brasileiros são um dos fatores críticos. Além disso, a comparação com o ciclo de mobilidade social dos anos 2000, quando as políticas de inclusão econômica dos primeiros governos Lula permitiram que milhões de brasileiros ascendessem à classe média, ainda ressoa fortemente na memória coletiva. A mudança nos desejos de consumo, amplificada pelo acesso às redes sociais, também desempenha um papel importante, ao expor a população a padrões de consumo mais elevados.
O papel das redes sociais e a nova classe média
Laura Carvalho aponta que as redes sociais têm facilitado o acesso das pessoas aos padrões de consumo de classes mais abastadas, o que gera novas expectativas e, consequentemente, insatisfação com o próprio padrão de vida. Nos anos 2000, a inclusão no mercado de consumo foi um marco para muitos brasileiros, mas essa nova classe média, que se formou na época, agora busca mais do que as conquistas do passado, como a compra de eletrodomésticos ou viagens de avião.
Desigualdade persistente e propostas de mudança
Mesmo com as políticas sociais robustas implementadas nos últimos anos, a desigualdade no Brasil permanece uma das mais altas do mundo, conforme destaca o World Inequality Report 2026. Para Carvalho, essa persistência se deve à concentração de renda e patrimônio no topo da pirâmide. Ela defende a necessidade de uma reforma tributária que inclua a taxação da riqueza para reverter esse quadro.
Implicações da dívida pública e o custo distributivo
A economista também destaca o impacto da dívida pública elevada, que transfere renda para os mais ricos através de juros altos, perpetuando a desigualdade. Muitos dos detentores dessa dívida são indivíduos de alto patrimônio, que se beneficiam dos rendimentos elevados sem enfrentar grandes riscos. Carvalho sugere que o custo distributivo dessa dívida é um aspecto que merece mais atenção nos debates sobre desigualdade no Brasil.
Caminhos para um novo ciclo de prosperidade
Para devolver o país a um ciclo de prosperidade, Laura Carvalho propõe a diversificação da economia e a ampliação dos serviços públicos, com o objetivo de gerar empregos qualificados para a população cada vez mais escolarizada. Ela ressalta que esse caminho passa pela continuidade da reforma tributária e pela implementação de políticas que promovam a equidade econômica, reduzindo as disparidades que ainda afligem a sociedade brasileira.
Fonte: https://g1.globo.com











