O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfatizou, durante o encerramento do 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Salvador, que a política mundial atravessa um momento de severa instabilidade, marcado pela erosão do multilateralismo em favor de tendências unilateralistas. Em um discurso que ressoou as preocupações de diversos líderes globais, Lula criticou veementemente a proposta do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de criar um ‘Conselho de Paz’, interpretando-a como uma tentativa de estabelecer uma ‘nova ONU’ sob seu domínio. Esta visão, segundo o presidente brasileiro, desconsidera a estrutura e os princípios da Organização das Nações Unidas, uma instituição fundamental para a governança global e a resolução pacífica de conflitos.
A ameaça ao multilateralismo e a busca por uma ONU mais representativa
Lula sublinhou que a atual conjuntura internacional vê a ‘lei do mais forte’ prevalecer, resultando em uma prática que, metaforicamente, ‘rasga’ a Carta da ONU, o documento que estabelece os pilares do direito internacional e da cooperação entre as nações. O multilateralismo, sistema que defende a coordenação de ações entre múltiplos Estados para a resolução de problemas comuns, está sendo ‘jogado fora’ por abordagens que priorizam interesses nacionais isolados, sem considerar o impacto global. Desde 2003, Lula tem defendido a reforma da ONU, especialmente do Conselho de Segurança, criticando sua estrutura desatualizada. A inclusão de novos membros permanentes, como o Brasil, o México e países africanos, é vista como crucial para garantir maior representatividade e legitimidade, permitindo à ONU enfrentar os desafios do século XXI com maior eficácia e evitar que propostas paralelas deslegitimem a instituição.
A proposta de Donald Trump para um ‘Conselho de Paz’ e suas implicações
A proposta de Donald Trump de criar um ‘Conselho de Paz’ em meio à polarização global, especialmente no contexto da Faixa de Gaza, com a responsabilidade de supervisionar um Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG), foi categoricamente criticada por Lula. Ele a interpretou como uma tentativa de estabelecer uma ‘nova ONU’ sob o controle de uma única potência, minando os mecanismos de governança global. A iniciativa, apresentada em Davos e com convites a líderes como o próprio Lula e a Espanha (que negou participação), demonstra uma tentativa de redefinir as regras geopolíticas fora dos canais multilaterais estabelecidos, ameaçando fragmentar a cooperação internacional e aprofundar divisões entre os Estados. A crítica de Lula aponta para a preocupação de que tal estrutura não seria um fórum de diálogo equitativo, mas sim um instrumento para projetar a influência unilateral.
A diplomacia brasileira em defesa do diálogo global
Diante destas tensões e propostas unilaterais, o presidente Lula tem intensificado sua agenda diplomática, buscando fortalecer o multilateralismo através do diálogo direto com líderes mundiais. Ele revelou estar em contato com importantes chefes de Estado, como o presidente da China, Xi Jinping; da Rússia, Vladimir Putin; o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi; e a presidenta do México, Claudia Sheinbaum. O objetivo é construir um consenso para ‘encontrar uma forma de se reunir e não permitir que o multilateralismo seja jogado para o chão e que predomine a força da arma, da intolerância de qualquer país do mundo’. Essa abordagem reflete a política externa tradicional do Brasil, que prioriza a construção de pontes e a promoção da paz, posicionando o país como um mediador potencial e um defensor da coexistência pacífica e do respeito mútuo em um cenário internacional cada vez mais volátil.
Críticas à soberania e integridade territorial: o caso Venezuela
Em seu discurso, Lula também manifestou profunda indignação com o que descreveu como uma ‘falta de respeito à integridade territorial’ na Venezuela, citando um incidente onde teria ocorrido o ‘sequestro’ do presidente Nicolás Maduro e da deputada e primeira-dama, Cilia Flores, por forças estrangeiras, com a presença de soldados americanos no mar do Caribe. Embora os detalhes específicos do incidente mencionado exijam contextualização, a declaração sublinha a gravidade da percepção de interferência externa em assuntos internos de um país soberano, um tema sensível na diplomacia latino-americana e nas relações com os Estados Unidos. Para o presidente, tais ações são incompatíveis com o princípio de que a América do Sul deve ser um ‘território de paz’, livre de armas atômicas e de imposições externas que buscam ‘mandar na gente’, reforçando a defesa da autonomia e integração regional frente a práticas intervencionistas.
O papel do Brasil no cenário internacional: autonomia e não-alinhamento
A política externa brasileira, conforme Lula, não se submete a preferências unilaterais, seja em relação aos Estados Unidos, Cuba, Rússia ou China. O Brasil busca manter relações com todos os países baseadas no respeito mútuo e na não ingerência, recusando-se a ‘voltar a ser colônia para alguém mandar na gente’. Essa filosofia reflete um desejo de autonomia estratégica e de um papel proativo na construção de uma ordem mundial mais justa e multipolar, onde a diplomacia e o diálogo prevaleçam sobre a coerção militar e a dominação econômica. Nesse contexto, Lula contrasta sua visão com a postura de Donald Trump, que, segundo ele, ‘toda vez que aparece na televisão se gaba de ter o exército e as armas mais poderosas do mundo’. Lula rechaça essa mentalidade belicista, defendendo uma ‘guerra com o poder do convencimento, com argumento, com narrativas’, onde a democracia é vista como ‘imbatível’, e rejeitando explicitamente a ideia de uma nova Guerra Fria ou a continuidade de conflitos devastadores como o de Gaza.
O 14º Encontro Nacional do MST: pautas internas e repercussões internacionais
O 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que culminou com o discurso de Lula, celebrou os 42 anos do movimento, reunindo mais de 3 mil trabalhadores e trabalhadoras sem terra de todo o Brasil para debater pautas cruciais como reforma agrária, produção de alimentos saudáveis, agroecologia, agricultura familiar e a conjuntura política. Uma carta entregue a Lula ao final do encontro reiterou as críticas à tentativa de frear o avanço do multilateralismo e ao imperialismo no continente. O documento denunciou a ‘invasão da Venezuela’ e o ‘ataque à soberania dos povos’, conectando essas ações ao ‘saque’ de bens naturais preciosos, como petróleo, minérios, terras raras, águas e florestas, que servem de pano de fundo para disputas geopolíticas. A carta reafirmou os princípios do movimento: a luta pela reforma agrária e pelo socialismo; a crítica ao modelo do agronegócio, da exploração mineral e energética; a luta anti-imperialista e o internacionalismo, demonstrando como as pautas sociais e ambientais do MST estão intrinsecamente ligadas a uma visão mais ampla de justiça global e resistência a formas de dominação.
A posição de Lula e o engajamento do MST demonstram uma frente unida em defesa da soberania e do multilateralismo, elementos essenciais para um futuro de paz e desenvolvimento equitativo. As discussões levantadas em Salvador não apenas ressoam no cenário político brasileiro, mas ecoam em debates internacionais sobre a necessidade de reformar as instituições globais e garantir que o diálogo e a cooperação prevaleçam sobre o unilateralismo e a força. Para se manter atualizado sobre estes e outros desdobramentos críticos da política nacional e internacional, continue acompanhando o Notícias do Tocantins, sua fonte confiável de informação aprofundada e análises relevantes sobre os eventos que moldam o nosso mundo.











